Potencial de tecnologia nas escolas

As descobertas no recente relatório da OECD, Nova Abordagem Necessária Para Inserir O Potencial da Tecnologia Nas Escolas, são preocupantes, mas não inesperadas. Se os computadores e tablets estão sendo usados para apresentar planilhas “gamificadas” ou simplesmente como leitores de ebooks, então não surpreende que eles não consigam impactar os alunos de forma positiva.

Era uma vez duas escolas. Em uma escola, os alunos usavam lousa e giz, enquanto a outra escola avançava para o uso de papel e lápis. Os alunos da escola “lousa e giz” aprenderam como resolver problemas interessantes e provar questões lógicas; os alunos da escola “papel e lápis” aprenderam a brincar com jogos como “jogo da velha” e a desenhar algumas formas geométricas. Após comparar a performance acadêmica das duas escolas, um respeitado painel de especialistas constatou: “o uso de papel e lápis não melhorou a performance acadêmica; na verdade, parece que tornou as coisas piores.”Shimon

Essa inserção da tecnologia nas escolas é como um trem em alta velocidade, que não pode ser parado por nada nem ninguém. Se não podemos visualizar os negócios sem computadores, lares sem conexão com a internet e adolescentes sem smartphones, então com certeza não podemos fechar os olhos e assumir que as escolas irão, de alguma forma, escapar dessa inevitável transformação. Assim como papel e lápis, tablets e smartphones chegaram para ficar em todas as escolas, até que uma tecnologia melhor seja inventada para mediar os conteúdos educacionais.

Entretanto, a pergunta não é como evitar a tecnologia, mas como usá-la efetivamente para os propósitos educacionais, tanto em sala de aula como em casa. Nós não precisamos que relatórios escolares nos digam que os alunos que utilizam o computador para bater papo ou para participar de atividades irracionais de matemática terão pior desempenho do que alunos que não usam computador. Isso é apenas o senso comum.

Dito de outra forma, a questão não é qual equipamento a escola usa, mas sim quais aplicativos esses tablets e laptops apresentam. Se os alunos são autorizados a bater papo, tuitar e navegar se rumo na web durante o precioso horário das aulas, então com certeza nenhuma boa vontade vai vir deles.

Da mesma forma, se as escolas estão investindo em softwares de matemática que simplesmente amplificam o que podemos fazer no papel e nos livros, então as atitudes negativas sobre aprender só irão aumentar. O mesmo é verdade para o software que utiliza jogos infantis e mal acabados que minam a intuição matemática ao invés de afiá-la.

Eu sou um professor de Ciência da Computação, autor de um livro best-seller publicado pela Editora MIT, instrutor de dois MOOCs da Coursera e co-fundador da companhia que desenvolve a Matific – um abrangente portfolio de jogos e atividades que ajuda professores a ensinar e alunos a aprender a matemática do ensino básico. Junto com meus colegas – outros professores, doutores e especialistas em jogos – nós nos esforçamos para usar computadores para transformar as salas de aula em espaços de engajamento e de capacitação. Como Matific foi de projeto piloto para plena produção, nós ainda não temos evidências para avaliar seu impacto acadêmico. Mas, é na prática que isso vai se provando: nas escolas que utilizam Matific com frequência, os alunos mostram maior curiosidade e interesse em matemática. De fato, eles ficam ansiosos para colocar as mãos nos tablets e usar a Matific para mergulhar em geometria e álgebra. Qualquer professor ou pai, que sabe como as crianças podem se sentir com relação à matemática, irá agradecer a extensão desta revolução.

 

Como disse Bill Gates, “content is king” (traduzido ao pé da letra, o conteúdo é rei). Escolas que desejam melhorar sua performance acadêmica devem focar menos em quais tablets ou quantos laptops comprar, e muito mais em quais conteúdos e softwares elas disponibilizam para seus alunos. Eu sou das antigas de coração, gosto nada mais do que ler um livro de papel e tocar minha guitarra. Mas, da mesma forma, sou fascinado em como a tecnologia digital pode capacitar professores e alunos e trazer aprendizagem de alta qualidade em todos os cantos do mundo. Não há dúvidas na minha cabeça que, uma vez que aprendemos a usar essa tecnologia de forma efetiva em casa e na sala de aula, iremos causar uma revolução dramática na qualidade da educação, no mundo todo.

O trem partiu da estação e está se movendo rápido. Cada educador deve se perguntar: eu quero permanecer nos trilhos e acenar; ficar ao lado e vê-lo passar quem sabe para onde; ou subir na locomotiva e pegar o trem para onde eu quero ir?

 

Por Shimon Schocken